Uma reflexão

“Já em pequeno sentira, uma vez por outra, propensão para olhar as formas bizarras da natureza, não as analisando, mas entregando-me ao seu encanto próprio, às suas involuções, à sua linguagem profunda.
Longas raízes lenhosas, veios coloridos nas rochas, manchas de oleo à superfície das águas, as fendas dos cristais… Todas as coisas semelhantes a estas exerceram, sobre mim, em diversas épocas, grande poder; especialmente a água e o fogo, o fumo, as nuvens, o pó e, muito particularmente, as manchas coloridas que via a girar ao fechar os olhos.

Ao número de experiências que fizera até então, no caminho para encontrar o meu próprio desígnio, veio juntar-se mais esta: a contemplação de tais formações, a entrega a tais configuração da natureza, irracionais, contorcidas e estranhas, liberta um sentimento de consonância do nosso íntimo com a vontade cujo poder deu origem àqueles efeitos.

Sentimos, em breve, tendência para considerá-los disposições do nosso humor e supô-los criações nossas. Vemos abalar-se e desvanecer-se a demarcação existente entre nós e a natureza, e aprendemos a conhecer o estado de espírito pelo qual não sabemos já se as imagens, na nossa retina, são originadas por impressões oriundas de exterior, se do interior.

Não há lugar algum onde, tão fácil e simplesmente, possamos fazer a descoberta do quão somos criadores, de quanto a nossa alma toma parte na perene criação do mundo, como através deste exercício.”

Herman Hess em Demian

Um comentário a 'Uma reflexão'

  1. Dulce disse:

    Bem precisamos deste exercício. Será difícil para muitas pessoas, mas mesmo dentro da desgraça só quem tiver esta consciência poderá sentir a vida na sua plenitude… na sua essência.

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