Neve e gelo. Foi tudo o que vi (ou sofri, depende do ponto de vista) durante uma semana e picos neste pais.
O frio transformava qualquer homem macho num gatinho recém-nascido que não sabe onde por as patas, o gelo fazia com que qualquer transeunte num semi-atleta olímpico de patinagem artística e a chuva que se conseguia meter por quaisquer frestas mal tapadas e que davam origem a um contorcer corporal digno de qualquer ataque epiléptico.
E como corolário e apesar de tanta água em diferentes estados sólidos ou líquidos o impensável aconteceu. Fiquei sem um pingo de água durante três dias… Tanta neve e tempestade lá fora e… Nada dentro de casa…
Em suma, que África, que safari… Venham para a Irlanda no pico do inverno e percebam a escala da aleatoriedade do tempo que estes gajos têm de aturar…
Vento. Não. Chuva. Não. Gelo. Não. Frio. Não. Chuva. Não. Sol. Raios, chuva de novo… (voltar ao inicio do parágrafo, por favor)
Não admira que, num tempo de crise e onde todos os impostos sobem, o governo tenha decidido baixar o preço da bebida.
Ha filmes que nos surpreendem e nos marcam para sempre. Hoje, na fase do zapping-vou-mas-é-dormir, deparei-me com um filme argentino chamado “BonBon (O cão)”. Acho que foi o olhar do homem que me fez dar uma chance ao enredo. Dei a chance e… Adorei.
A historia gira à volta do Juan “CoCo” Villegas, um homem que trabalhou durante 20 anos como mecânico de uma estação de serviço na Patagónia e que, de repente, se vê no desemprego. Sem perspectivas de futuro, tenta primeiro fazer e vender facas artesanais com pouco ou nenhum sucesso. Após arranjar a correia da ventoinha do carro de uma desconhecida, ele recebe um estranho pagamento, um belo cão de elevado pedigree chamado “BonBon”. Ao princípio ele não sabe bem o que fazer com o seu novo amigo canino, mas quando os dois vão para estrada juntos a vida de “CoCo” Villegas sofre uma surpreendente reviravolta.
Mas o que mais me tocou foi o olhar do homem. Nunca vi um olhar tão bondoso, tão genuino, tão simples…
Entretanto descobri que este senhor foi prémio Nobel da literatura já há uns anitos. Estranhei nunca ter ouvido falar dele… e estranhei ainda mais depois de ler o livro…
É uma beleza só!
Incrível ver como o senhor conseguiu escrever um livro inteiro, onde o enredo em si é quase banal, mas que a riqueza das personagens é tanta que é tudo!
É daqueles livros que só nos prende verdadeiramente lá pró 2º ou 3º capítulo, mas que a partir daí só queremos continuar a ler e mantemos a esperança que simplesmente nunca acabe…
Porque a riqueza não está no final das aventuras, mas em cada pequena criatura que vai aparecendo e vai ficando ou vai indo à sua vida… tal qual na vida real… que só tem um fim possível…
Este livro oferece um pouco de tudo. Reflexões profundas, risos, nostalgias, alegrias, Primavera, Verão, Outono e Inverno…
Li em Inglês mas sei que existe tradução para Português apesar de não a ter encontrado à venda em lado nenhum…
Um livro absolutamente brilhante. Uma história de fantasia que nos presenteia com requintes de imaginação verdadeiramente fora do normal.
Não é um livro para grandes reflexões, mas sim para nos deliciarmos a tentar produzir nas nossas cabeças as imagens verdadeiramente fantásticas que ele nos transmite.
A história não é aditiva como uma droga, mas não se consegue parar de comer como castanhas assadas (mas sem os efeitos secundários)!
Espero que o ano que aí vem seja repleto de magia e de sonhos e de boa loucura.
Espero que leiam bons livros e que beijem alguém que vos ache maravilhosos.
E não esqueçam de fazer alguma arte – escrever ou desenhar ou construír ou cantar ou viver como só vocês conseguem.
E espero que algures neste ano, vos surpreendam a vós próprios.
Espero que tenham um ano maravilhoso, que sonhem perigosamente e desavergonhadamente, que façam algo que não existia antes de vós o fazerem.
Que sejam amados e apreciados e que tenham pessoas para amar e apreciar de volta.
E mais importante (porque acho que devia haver mais bondade e mais sabedoria no mundo de hoje), espero que sejam sábios quando necessário e que sejam sempre bons.
E aqui fica o original:
“May your coming year be filled with magic and dreams and good madness. I hope you read some fine books and kiss someone who thinks you’re wonderful, and don’t forget to make some art — write or draw or build or sing or live as only you can. And I hope, somewhere in the next year, you surprise yourself.
I hope you will have a wonderful year, that you’ll dream dangerously and outrageously, that you’ll make something that didn’t exist before you made it, that you will be loved and that you will be liked, and that you will have people to love and to like in return. And, most importantly (because I think there should be more kindness and more wisdom in the world right now), that you will, when you need to be, be wise, and that you will always be kind.” Neil Gaiman