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Dia 3: O passeio

Monday, 8 de September de 2008 | Zé Pedro

Dormi bem. Mesmo bem. O que ia fazer neste dia? Já sei, vou ao centro de autocarro :)  Upa upa… Pooooobre!

Depois de todos os preliminares do dia, lá sai eu de casa em direcção à paragem de autocarro. Quando lá cheguei… Voltei a correr para trás porque me esqueci da carteira. Depois de confirmar que não me tinha esquecido de mais nada fui para a paragem. Como não sabia quanto tinha de pagar preparei a estratégia. “Dou ao homem uma nota de 5 e depois vejo o troco”, pensei eu. De mestre. O autocarro chegou, eu entrei, paguei e lá fui eu sorridente para um dos lugares. Enquanto via quanto era o bilhete lembrei-me que não tinha tirado a senha quando paguei… “Ó que caraças… E agora? Vou lá e peço-o? Ou confio na sorte e espero que não apareça nenhum pica?”. Sim, porque no primeiro dia estava eu no autocarro com o Antonio quando ele viu entrar um pica e me disse que nunca tinha visto um em dois anos… Pois… Eu no autocarro e… Pimba, um pica… Agora sem ticket… Bem, o que é certo é que até chegar ao centro, eu parecia a minha cadelinha a esticar freneticamente o pescoço acima da mesa para ver se havia comida ao alcance da sua potente gula… Sempre que o autocarro parava lá esticava eu o meu pescoço para ver se via algum pica. Resultado? Um torcicolo.

O centro parecia deserto. Havia gente aqui e ali, mas nada como no dia de ontem ou mesmo na sexta passada. Passei um pouco, fiz mais umas compritas de emergência, e voltei para casa.

Em casa, silêncio. Antonio e Nicola dormem até às quinhentas porque trabalham de tarde e à noite. Que fazer? O almoço, claro. Arranjei um esturgidinho para fazer um franguinho, deixei apurar, juntei o arroz e água e passados 15 minutos vi que… A panela é uma merda e tudo estava a esturrar. A sorte é que tenho o mestrado em manobras de diversão para imprevistos culinários. Uma retirada aqui um ataque em força ali e o problema estava contido. Comi, deliciei-me e pouco mais fiz o dia todo. Eram 18h.

Amanhã é o meu primeiro dia de trabalho.

Dia 2: A mudança

Monday, 8 de September de 2008 | Zé Pedro

Acordo com uma chamada. Era a “simpática” dona do B&B a perguntar se eu não ia descer para comer o pequeno almoço. Relutantemente e a esconder a minha raiva disse-lhe que sim. Quando lá cheguei pedi novamente um enfarda burros e sai. Tinha combinado com o Antonio que iria mudar-me para a casa hoje, por volta das onze horas. Como teria de o fazer de táxi lembrei-me que era inteligente da minha parte ir antes ao Penney’s ali perto comprar umas coisitas para o quarto. Lá fui e voltei carregado que nem um burrito. Pedi à senhora do B&B um táxi e esperei. Assim que chegou, atafulhei-o até ao tutano com as minhas coisas e fui para o meu novo alojamento.

Quando cheguei o meu outro colega de casa, Nicola (um francês simpático mas pouco falador), estava à minha espera. Cumprimentou-me, ajudou-me a carregar as malas para dentro e lá se foi embora para o trabalho. Olhei para o quarto, vi o caos de malas, malinhas e maletas e… Decidi que primeiro iria fazer umas comprinhas. Afinal, com o estômago cheio tudo se faz melhor… Ah… Nada como ser latino para acreditar nestes disparates. Mas lá fui eu…

O dia estava bonito. O sol rompia furiosamente as muralhas de nuvens e… Estava com calor? E eu, espertinho, com uma t-shirt, uma camisola, um casaco, um guarda-chuva e mais alguns adereços. Toda a gente de manga curta e eu, o monhé do sitio, encasacado à espera da nova era glaciar. Mas, calma, ainda há mais… Passados vinte minutos cheguei ao centro comercial. Em primeiro lugar fui comprar o melhor amigo do irlandês: a mochila. Como o tempo “vareia” rapidamente, a maior parte anda com uma mochila que tem um casaco, um guarda-chuva ou uma camisola. Se ficar quente, retira-se uma peça de roupa e arruma-se na mochila. Se ficar frio, faz-se o inverso. Simples. Depois de já ter a mochila fui ao supermercado. Depois de 30 minutos de muita procura e de muita ginástica metal à procura de produtos similares aqueles que conheço e adoro no meu pais, lá completei o meu carrinho de compras essenciais. Dirigi-me para a caixa e vi que aquilo tudo não cabia na minha mochila. Comprei uma saca resistente (os sacos plásticos aqui custam dinheiro) e tratei de arrumar todas os 20kg de compras.

Se estiveram atentos até agora vão lembrar-se que eu estava de casaco, camisola e t-shirt. Ora, adicionando uma pitada de sol, uma mochila e uma saca com 20kg de compras e 20 minutos de caminhada até casa, imaginem o meu calvário. Por opção própria (!!) decidi voltar a pé e esquecer o autocarro que me sorria ali mesmo ao lado. Pois é… Já sei o que sentem os peregrinos que fazem a caminhada até Fátima. Quando cheguei a casa até vi a luz… E que luz. Acreditam que fiquei com o pé pisado? É verdade… Mas, esperem, ainda não acabou… Depois de algum tempo de descanso. Decidi que me faltavam umas coisitas. E… voltei a repetir a proeza, mas sem camisola e sem compras.

É verdade, lembram-se quando eu disse que pedi o pequeno almoço “enfarda burros”. Pois é. Não menti.

Neste dia não me mexi mais. E dormi bem.

Dia 1: O desconhecido

Saturday, 6 de September de 2008 | Zé Pedro

“Raios parta o telefone! Porque me tem sempre de me acordar quanto o meu sono é profundamente delicioso?”. Abri os olhos, sintonizei as dioptrias e vi onde estava. Na sala ao lado (literalmente do outro lado da porta) já se servia o pequeno almoço. Já estava na hora de comer qualquer coisita. Arranjei-me e fui directo para a sala de pequeno almoço. Pedi um “full irish breakfast”, ou seja, um pequeno almoço irlandês que enfarda burros. Saciado, peguei nas minhas coisas e sai rapidamente directo ao local onde devia pedir o PPS (nº contribuinte do sitio). Chovia a potes e em direcções aleatórias graças a um vento cortante que decidiu aparecer para me lixar a vida. Depois de um tempo, já completamente ensopado, resolvi comprar um guarda chuva numa loja tipo 300 que por aqui encontrei. Pior foi a emenda, imaginem. Para além de continuar a apanhar chuva e vento tive de tirar um curso rápido de condução de guardas chuvas baratos no meio de tempestades irlandesas. Resultado? Perdi 3 euros e algum juízo. Depois de muita luta cheguei ao sitio. Para não variar muito, demasiado cedo. Depois de esperar um pouco subi e fui ao guichet pedir o PPS. Ao contrário do que a minha entidade empregadora me disse eu precisava de um comprovativo de morada… Ok… Preciso de arranjar casa, tipo já.

Antes de ir para a Irlanda eu contactei algumas pessoas que tinham quartos para arrendar. Entre elas estava o Antonio, espanhol de nascença, e que morava na rua onde vou trabalhar. Depois do que a senhora do guichet me disse rapidamente lhe liguei a dizer que queria ver a casa. Ele concordou e lá fui eu à procura de um táxi. Percorri o centro da cidade TODO e nada… Nenhum táxi… “Isto é de propósito…”, pensei. Mandei tocar a retirada e voltei ao B&B para pedir um táxi. O táxi chegou, eu fui e ambos chegamos lá.

Ao chegar vi Antonio à porta a acenar para me indicar a casa. Entrei, vi a casa e o quarto, decidi ficar ali e perguntei-lhe o que poderia fazer para ter um comprovativo que morava aqui. Rapidamente sacou de um papel e começou a escrever uma declaração em que garantia que eu partilhava a casa com ele. Como não tinha a certeza se a senhora do guichet iria aceitar o papel sem mais nem menos disse que ia comigo lá nesse momento. Fiquei parvo e agradecido e lá fomos. Apanhamos o autocarro até ao centro, mas chegamos no momento onde a senhora do guichet saia para almoçar. Raios… Que fazemos? “Vou-te mostrar o centro da cidade”, disse ele. Rejubilei em segredo J Vimos tudo o que havia para ver: lojas, lojas, mercados e mais lojas (lembrem-se que estava a chover a potes portanto é natural que ele quisesse estar debaixo de tecto). Quando foi tempo de voltar à companhia da senhora do guichet, aceleramos o passo, voltamos para o edifício, tiramos a senha e esperamos a nossa vez. Cinco minutos depois estava tudo tratado. Simples. Ah! E não tive de pagar nada… Estranho… Ir às finanças ou aos serviços sociais e não pagar nada? Devo estar maluco… Ou mal habituado…

Depois de me despedir do Antonio e libertá-lo das grilhetas fui explorar um pouco mais da zona. Andei, vi, cheirei e senti. E confesso que gostei. A cidade é gira, mas o que mais me tocou foi o facto de apesar do tempo cinzento as pessoas são alegres, como se precisassem de compensar uns aos outros pela falta do sol restaurador. Gostei. Faz sentido.                                                                                                                         

Fui comer qualquer coisa, voltei ao B&B onde já tinha o meu quarto e adormeci profundamente.

Dia 0: A partida

Saturday, 6 de September de 2008 | Zé Pedro

“Wake up! Wake up! I kill you”, dizia incessantemente o telemóvel enquanto me tentava acordar naquela quinta feira cinzenta. Relutantemente sai da cama e vislumbrei pela última vez os raios de sol a passar através da persiana entreaberta. Porra para isto – pensei – como é que a xana me convenceu a deixar que o sol me cegasse todas as manhãs enquanto dormia que nem um bebé saciado… (adormeci) (acordei de novo com a malvada sirene de alvorada do telemóvel. E, finalmente, levantei-me.

Depois de olhar para o espelho a avaliar o tamanho da barriga, vesti-me e comecei a labuta. Caixa para o carro, outra caixa para o carro, mala super-giga-mega-dasse para o carro seguida dos 20kg de bagagem de mão, costas e braços. Desliguei o gás, interrompi o fluxo de àgua e dei um último olhar para a casa pensando o quanto feliz ali tinha sido. Fechei a porta, verifiquei o fecho, verifiquei mais duas vezes (quem me conhece, já sabe…) e pus-me na estrada a caminho da casa dos meus pais.

Passados <n> minutos (não faço ideia de quanto foi) cheguei. Pai? Nada… Nunca foi de cumprir horas… Comi um bolo comprado no dia anterior enquanto não chegava. De repente, como se fosse uma carta das finanças chegou e começou logo a fazer estardalhaço. “Então filho!” (nunca sei a resposta a esta pergunta pelo que respondo sempre “Então…”. Parece que é a resposta correcta porque a pergunta não volta a ser feita. Arrumei o carro no seu sitio, dei as indicações adequadas a um amante de automóveis (tipo, liga-o de vez em quando e anda com ele um bocadinho) e entreguei-lhe a chave da super potente máquina. Olhei para trás desconsolado e pensei “Ehehehe, dá-lhe trabalho a pegar de vez em quando! Eheheheh”.

Como tínhamos tempo, o meu pai teve a ideia de irmos comer um rodízio a Ilhavo, terra onde a minha mãe está de momento a apanhar morangos J Com um solzito a propósito comemos enquanto eu reparava que a minha nuca me tentava dizer algo. Os dois estavam em silêncio enquanto comiam, a minha mãe de vez em quando dava-me um beijo no braço e o meu pai estava silencioso. Percebi, acreditem. Também gosto muito de vocês. Comemos, saímos e lá fomos para o aeroporto.

No tempo certo chegamos ao aeroporto fui fazer o checkin. “Ai… Senhor José… Tem peso a mais…”. “A barriga nota-se? Raios”, pensei para mim. “Dois kilos a mais eu ignoro, mas três…”. “Uff”, pensei eu, “afinal está a falar da mala”. Viro-me para o meu pai e digo que realmente juntei um casaco ao monte e fiz cara de gato das botas… Pela cara não me estava a safar… Perigo iminente… Até que… “O seu bilhete de embarque não é valido… pagou com cartão de crédito?”. Morri… Sim… Então vá ao balcão da TAP ver o que se passa e não se preocupe que eu trato já do checkin da sua mala. “O que me interessa que a minha mala vá se eu fico por cá, sua pindérica”, pensei enquanto me dirigia para o dito balcão dos tormentos. “Olhe, pagou com cartão de crédito? Com o SEU cartão de crédito”, perguntou a comparsa. “Não, foi a minha esposa que pagou a viagem com o cartão dela”. “Pois é, fique sabendo que no email vai uma indicação para confirmar os dados do cartão para nós termos a certeza que o cartão não é roubado já que o nome do titular não é igual ao do passageiro”… Fiz ronha de novo… Olhos de gato… Passados vinte minutos, tudo resolvido… Ufa… Voltei ao checkin, despedi-me da anja da mala grande e dirigi-me à zona restrita de viajantes. Despedi-me do meu pai enquanto o mandava embora. Ele insistiu em ficar a ver os aviões a partir. Percebi de novo. Também gosto muito de ti.

E pronto, a aventura começou… Avião…. Levantar, aterrar, bagagem, mudar de terminal… No novo terminal, vou a fazer checkin e quem me atende? Quem? Uma portuguesa… Conversa puxa conversa e quando já começava a conhecer mais detalhes da família, resolvi raspar-me dali. Verificação se segurança, esperar três horas, avião, levantar, aterrar, bagagem… Apanho um táxi e andamos quem nem maluquinhos às voltas à procura do B&B (bed and breakfast) onde ia ficar nas duas noites seguintes. Como uma miragem, eu vejo-o e suspiro de alívio.

Toco à entrada, vem uma senhora bonacheirona atender a porta. Cumprimento-a e ela cumprimenta-me. Pergunto pelo meu quarto e ela diz que tem algo para me contar. “Outra vez? Ai, temos o caldo entornado…”, pensei. Afinal parece que uma senhora que aqui estava alojava sofria de vertigens e teve um pequeno problema durante o dia que a deixou completamente zonza. A solução foi usar a sala comum como quarto, abrindo o sofá e fechando todas as portas. Respirei fundo e disse que não havia problema. Fui à casa de banho (já que n tinha quarto tinha de usar a casa de banho de serviço) e fui dormir finalmente. Coloquei a cabeça na almofada e… Não me lembro de mais nada…

(to be continued…)